20/09/2014

o caminho // santiago

uma vez falaram-me do caminho. que havia três diferentes maneiras de o encarar: podíamos fazer o caminho por acreditarmos em Deus, por sermos católicos; podíamos enfrentá-lo espiritualmente, ou podíamos fazê-lo única e exclusivamente pela aventura.

quem faz o caminho fá-lo inconscientemente, pelo menos num primeiro momento. não sabe para o que vai, de onde parte, onde é que (o corpo e a alma) fica(m). vai desprendido, desamarrado, com a única certeza de que terá, efetivamente, de caminhar. mas não é só isso. não é só caminhar. é sentir as partes do corpo, os músculos todos, é sentir as falhas nos joelhos - o meu direito que se acuse, que nunca mais foi o mesmo. fazer o caminho é partilhar joelheiras e tomar brufen (para os joelhos, claro).

uns sofrem dos pés, queixam-se das bolhas ou das costas pisadas. porque fazer o caminho é carregar a vida às costas. é trazer na mochila o essencial, aquilo que, à partida, só nos preocupa no final - e que tem de nos ocupar por completo. tem que ser o objetivo único da nossa partida, existência e chegada ao caminho. fazer o caminho muda a vida, antecipa o século e faz-nos perguntar quando é que, finalmente, o terminamos. a resposta é nunca. não sei quando comecei o caminho. não sei quando o vou acabar. não sei por que é que ele é tão importante em mim. por que é que ele é vida.

uns sofrem da alma, o coração queixa-se, as lágrimas abrem pestanas na madrugada. há quem leve o caminho nos pés, há quem o traga nas mãos. outros, na boca. apregoam-no, contam-no. mas o caminho não se explica, não se sente, não se vive. faz-se. ou tudo isto num só. ou nada disto em coisa alguma. o caminho é um pouco como o amor. aquele que nasce, que cresce, que amadurece em nós sem aviso ou causa maior. o caminho abraça-se no amanhã, na ânsia de um dia diferente.

no caminho não se sabe as horas. não se contam as bolhas nos pés, não se sabe qual a que dói mais. por vezes acabamos etapas já sem elas. afinal rebentamo-las pelo caminho, e o que fica? no final, o que fica? só a alma, o amor, o calor e a chuva. fiz o caminho duas vezes, mas sei que vou voltar a Casa um dia.

não é preciso acreditar em Deus para fazer o Caminho, mas de lá sai-se crente em algo. nem que na vida seja, ou na dor física. do Caminho saímos crentes em algo maior, que nunca ninguém vai saber explicar. talvez seja a saudade.




até já,
luísa

17/09/2014

summer freedom // winter love

acabaram as férias e, com elas, a despreocupação com o dia seguinte, com a hora de almoço que já passou, com mais um mergulho no mar. voltamos à rotina com pouca vontade de recuperar o ritmo perdido. o que me apetece é encher os pés de areia e trazer o sal do mar na pele. quero cheirar a protetor outra vez e queixar-me por ter de o espalhar vezes sem conta.

o verão alegra-nos, não só pelo calor (inexistente), mas pela ansiedade de entrarmos de férias, de vermos o dia passar pela janela, sentirmos o vento atirar-nos areia para as pernas. é ouvir os chinelos embaterem nos calcanhares, o arrastar da preguiça acumulada nos pés, o vento quente que nos relembra a ausência do tempo. a inexistência das horas.

mas o verão traz também o outono, e com ele o inverno. e a rotina persistente. as sapatilhas molhadas de descer a rua, o sair da faculdade já de noite, o acordar para ela na madrugada. o frio que nos faz rogar pragas de tão persistente ser. mas faz-me bem. ver o frio debaixo da manta, ou na lareira a crepitar. daqui a nada é natal. e o tempo não espera...



até já,
luísa